O Baile (Le Bal - França - 1983)

Como vai, galera? Espero que todos bem e estudando!

Devo lembrar da entrega do relatório de "A Arte é Alegre?", texto de Theodor Adorno (discutido na última quinta-feira), que deve se dar na próxima quinta-feira (14/05/2009) - e sem adiamentos (visto que a entrega atrasada fará cair a nota do relatório pela metade). Mas, para um maior aprofundamento no tema, separei alguns textos relacionados que ajudarão no relatório (download aqui)

Em nossa próxima aula, vamos assistir o maravilhoso filme de Ettore Scola: O Baile (Le Bal - 1983), para a realização de relatório com entrega prevista para a aula seguinte (quinta-feira, dia 21/05/2009).

Segue a ficha técnica e um "aperitivo" do filme.

Grande abraço!


 

O BAILE  (1983)

Le Bal   (França)

Ballando, ballando   (Itália)

 

 

 

Direção:  Ettore Scola

Roteiro:   Ettore Scola, Ruggero Maccari, Jean-Claude Penchenat, Furio Scarpelli

Produção:  Giorgio Silvagni

Música Original:  Gilbert Bécaud, Vladimir Cosma

Fotografia:   Ricardo Aronovich

Edição:  Raimondo Crociani

Design de Produção:  Luciano Ricceri

Figurino:   Ezio Altieri, Françoise Tournafond

Efeitos Sonoros:  Bruno Le Jean, Corrado Volpicelli

País:  França, Itália, Algéria

Gênero:  Comédia Musical

Prêmios: Prêmios César, França  -  César de Melhor Filme

Prêmios César, França  -  César de Melhor Direção

Prêmios César, França - César de Melhor Música



Elenco 
Ator / AtrizPersonagem
 Marc BermanO Aristocrata / O Colaboracionista
 Martine ChauvinA jovem Florista / A Estudante
 Christophe AllwrightO jovem do Subúrbio
 Aziz ArbiaO jovem Operário
 Chantal CapronA Manequim
 Régis BouquetO Patrono do Salão / O Camponês
 Liliane DelvalA Jovem de cabelos compridos / A Alcoólatra
 Francesco de RosaToni, o jovem Criado
 Rossana di LorenzoA Dama-pipi
 Étienne GuichardO jovem Estudante / O jovem Professor
 Raymonde HeudelineA Operária
 Arnault LeCarpentierO jovem Tipógrafo / O Estudante
 Olivie LoiseauO jovem irmão da Operária
 Nani NoëlA jovem Judia / A Refugiada
 Jean-Claude PenchenatA "Cruz de Fogo"
 Jean-François PerrierO Sacristão apaixonado
 Anita PicchiariniAmiga da Operária
 François PickO jovem Estudante
 Geneviève Rey-PenchenatA Aristocrática
 Danielle RichardA Ajudante da Modista
 Monica ScattiniA Jovem Míope
 Michel TotyO Operário especializado
 Michel van SpeybroeckO Homem que vem de longe / Jean Gabin

Sinopse

1983 - Num grande salão de baile, construído nos anos 30, as mulheres são as primeiras a chegar, uma após outra:  elas são desde uma quarentona clássica, com seu coque e seu tailleur preto bem cintado, à loura carnuda que faz como se tivesse sempre 20 anos...  Em seguida, entram os homens que se dirigem ao Bar.  Entre eles, encontram-se um indivíduo cheio de tiques e que não para de chupar bombons, um outro de idade madura mas sempre bem disposto, um homem tímido de ar amedrontado.

Enquanto dançam ao longo do salão, homens e mulheres se recordam do passado, com os bailarinos mudando de personagem à medida que o filme viaja no tempo, repassando a história da França dos anos 30 aos anos 80.  

Assim, em 1936, surge a Frente Popular dando força à classe trabalhadora; em seguida, é retratado o período de ocupação nazista, durante a 2ª Guerra Mundial;  em 1944, quando Paris é libertada pelas forças aliadas, um oficial alemão e um colaborador são repelidos, enquanto um membro da Resistência é recebido como herói, ao mesmo tempo em que explode a música americana, no estilo Glenn Miller; em 1946, soldados americanos trazem meias de seda e o jazz;  em 1956, chega o rock' n' roll;  em 1968, estudantes radicais tomam conta do abandonado salão de baile;  em 1983, é a vez da música 'discô'.   O baile termina melancolicamente.

....



Avistamos, inicialmente, globos de espelhos. Em seguida, nos é apresentado o único cenário do filme: uma espaçosa pista de dança, rodeada por mesas e cadeiras e ladeada por um balcão de bebidas, uma escadaria ao fundo. Eis que os atores vão surgindo. Primeiro, as mulheres (uma de cada vez); depois, os homens vêm, alinham-se lado a lado e descem os degraus de modo quase simultâneo. Todos, ao entrar, caminham em direção ao grande espelho do outro lado do salão para se observar, conferir se o cabelo e a roupa estão nos conformes. Nenhuma palavra é proferida, há somente olhares e gestos.

Não assisti a todos os filmes do italiano Ettore Scola, mas O Baile é, muito provavelmente, o projeto mais criativo de sua carreira. A ausência total de diálogos confere ao roteiro uma perigosa incursão no mundo da pantomima em plena década de 80, além de uma cuidadosa coreografia musical que realça o enfoque emocional de cada situação. A dramaturgia da fita depende exclusivamente da mise-en-scène, uma tarefa hiperarriscada!

A premissa é maquinar uma retrospectiva da sociedade francesa, desde a década de 30 até o final dos anos 70, por meio dos figurinos e da trilha sonora. O elenco é sempre o mesmo, entretanto as músicas e a cenografia encarregam-se de nos centrar em diferentes períodos históricos. Mais que isso, O Baileescreve uma esplêndida crônica dos relacionamentos humanos ao longo do século 20, tão saturado por mudanças de comportamento. O melindre no primeiro contato dos rapazes com as moças, no período do pré-guerra, dá lugar à exploração banal da sensualidade nos rituais modernos de paquera. Decotes ousados e pernas de fora deixam pra trás os ancestrais vestidos recatados e toda a sorte de acessórios. 

Apesar das transformações mais visíveis, Scola deixa patente que o maior objetivo das pessoas é imutável: encontrar um parceiro. E qual melhor ambiente para falar disso do que uma pista de dança? O salão, as músicas e o gestual dos atores se mantêm como elemento figurativo da passagem do tempo, tal como a caricatura dos mais diversos tipos urbanos, do gângster ao herói de guerra, do gigolô latino ao malandro com jaqueta de couro e topete, da glamurosa loira sexy à gélida morena vamp. Cada um aludindo nostalgicamente a épocas que não voltarão mais, prato cheio aos saudosistas de plantão. Acompanhar este filme junto a uma platéia de idade variada deve ser uma experiência e tanto, uma apreciação de como as gerações mais antigas reagem diante de semelhantes retrogressões. Inclusive nos espectadores mais jovens existe a expectativa de um sentimento catártico, uma certa identificação, saudades de uma era não vivida.

A multiplicidade de ritmos que invade O Baile garante à obra uma postura universal, muito além da história da França. Temos de tudo um pouco: clássicas baladas francesas, jazz, rumba, tango, rock’n roll, disco dance e até um samba de Ary Barroso. Um pot-pourri digno de nota. As músicas deixam de ser apenas um detalhe técnico para se tornar personagens. Há um gigantesco depósito de emoção em cada melodia, em cada letra ou arranjo, tudo sincronizado com perfeição às ações filmadas. Scola, aliás, venera seus personagens — um mais adorável que o outro —, enquadrando-os com muita ternura e respeito. Meu favorito é a garota de óculos que permanece sentada, uma revista de celebridades sempre à mão, esperando um convite para dançar. Curioso também perceber que as canções executadas nos bailes de antigamente eram apropriadas para que os amantes permanecessem colados um ao outro o tempo inteiro, o que depois foi trocado pela individualização dos movimentos.

A consistência desse trabalho é comprovada pelo notável estudo dos atores unicamente pelas exterioridades, o que converte qualquer fala num artigo supérfluo. Existe, sim, o pano de fundo histórico — a queda da aristocracia, a invasão nazista, o milagre econômico, as rebeliões estudantis, etc. —, contudo O Baile se concentra principalmente na ampliação da linguagem cinematográfica, transcendendo as regras básicas da sétima arte, para fazer um panorama psicológico dos personagens pelo uso do corpo. Portanto, chamá-lo de filme experimental não deixa de ser uma autêntica e justa classificação. Impõe-se uma corajosa empreitada em valorizar as expressões faciais, do mesmo modo como Jacques Tati, 30 ou 40 anos antes, valorizara os movimentos do elenco e das coisas a seu redor. Ettore Scola aplica um tom teatral na maioria de seus trabalhos (entre eles Feios, Sujos e Malvados e a obra-prima Um Dia Muito Especial), o que ficou ainda mais evidente em O Baile. É o tipo de filme que não agrada a qualquer um, convém mencionar. Aqui, a disposição para entrar em contato com novidades se faz necessária. Mas não se preocupe, está longe de ser um trabalho tedioso ou aborrecido. No balé de Scola, nenhuma palavra é pronunciada, porém muita coisa é dita.





"É um bom ponto de vista encarar o mundo como um sonho. Depois do pesadelo, acordamos e dissemos que foi só um sonho." - Hagakure


Nada como ficar desesperado em uma semana de louco. Procurando casa, fechando nota, enfiando-me em projetos que nem deveria estar entrando... Haja tempo! É meu amigo, "tô fudido"!



Museu do Engenho

Semana passada, estive na casa dos meus pais. Eu nem imaginava o quanto sinto falta daquele lugar. Cesário Lange, a terra dos bravos (Ha, ha, ha!). Pena que se tornou um lugar triste e saudoso; cheio de lembranças e memórias. Andar pelas ruas desta pequena cidade, transforma-me em um poço de saudosismo.

Casa de papis Jorge Aragão e mamãe Dona Tereza...

Dona Tereza e as plantinhas dela...

Macaco no mato?

Lugarzinho de paz...

Macaco quer banana?

Meu Pé-de-Limão-Galego... O novo livro de ieu!

Pra quem acha que banana dá em supermercado... =X

Para "espairecer"...

Mandioca? Adooooooooooooooro!

Os cágados (ou seria cagados?) estão melhor que eu... Casa exclusivamente projetada, com piscina, casa de hóspedes... Fizeram bem em sair de São Paulo, hein?


Não consegui identificar... Cupim ou bola de estrume?

Mangueira... Ótima pra acabar com seus problemas, na época certa... Fique sentado embaixo cinco minutos para pensar em seus problemas... Você verá que esquecerá tudo, como se tivesse sido acertado por algo vindo do céu... :OP

E pensar que meu "caminho das pedras" recomeçou aqui...


Terça-feira, fui com a Aldiny e com o Luiz (meu irmão) nas Casas Bahia, fazer um levantamento de valores para os móveis. Caraiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Maluco! Tá foooooooooooooooooooooodaaaaa! Eu imaginava que iria gastar, mas nós não temos noção de quanto até ir lá e ver "in loco". A vida tá uma bagunça total, e agora mais essa. Tenho que sair do apartamento "pra ontem", e de repente, me vi em uma situação dessas.

Estou preocupado com a minha saúde, mas não estou podendo nem ir na academia. Minhas visitas frequentes ao cardiologista e meus exames estão sendo feitos; apesar de tudo. Faltou vergonha na cara e resolver parar de fumar, entretanto, tenho estado tão nervoso que me apoiei nesta "bengala" novamente. E ainda por cima, dei uma "engordada básica" (que Allah me proteja). Pessoas importantes para mim, estão passando por fases de transformação, fases ruins ou fases de reencontro. Será a chegada dos "trinta" e dos "enta" (quarenta, cinquenta...)?
E vai mais gasto. Preciso ir em um endocrinologista, em um nutricionista, em um dentista e tirar a tão adiada carta de motorista. Mas, neste último caso, talvez seja relegado a último plano.

Para dar uma relaxada, fui neste sábado (02/05/2009) ver o Nação Zumbi no Parque das Águas, depois de um dia de compras do mês e diários de classe. Show do caralho! Eu adoro Nação Zumbi e nem preciso falar que se eles tocassem só meia música, eu iria adorar do mesmo jeito (porque nem dá para ir na Virada Cultural... Afe!).  Entretanto, o show serviu para me mostrar o quanto eu amo essa vida "junky". Por alguns momentos, me senti vivo de novo . Estou tão cansado de não poder ser eu mesmo; de ter me transformado em uma sombra de mim mesmo. Saí de casa, sem saber como chegar no Parque das Águas, mas como a minha vida em São Paulo, eu me encontro facilmente nos meus "rolês" culturais. Encontrei meu parceiro, o Rafael (professor da escola onde dou aula) e seus amigos. Ao começar o show, me senti como o oitavo membro da banda (destaque para a performance de Lúcio Maia, o guitarrista). No bis, tocaram mais duas músicas. Todavia, o show termina e eu me encontro na realidade novamente: avulso entre os amigos de um camarada meu. Não preciso nem dizer que fiquei triste, mas não posso simplesmente retomar a velha vida de antes, ainda mais em uma cidade em que estou à um ano e meio e não formei uma rede social. Mas tudo bem, valeu a pena. <\Cara-de-pau mode off\>

Segue as fotos toscas que consegui tirar com a minha câmera fotográfica de meio megapixel, os vídeos que eu gravei (Tosqueira Records) e um clipizinho pra animar a domingueira de preenchimento de diários.



Por que nestes eventos sempre contratam um mestre de cerimônias tosco pra apresentar? ("Daqui a pouco, Nação Zumbi para agitar essa galera" - repetido umas trezentas vezes... Afe!)

Com certeza, a melhor coisa que teve antes do show, foi a presença da "mulherzinha-que-entrega-a-premiação-do-evento". Totoza! Hum!!! o.O

Se você apertar bem os olhos (ou ligar a visão noturna), você vai ver o Nação Zumbi subindo ao palco... o.O


Jorge du Peixe ao fundo, Rafael e a mina dele (Putz... Nem sei o nome... kkkk).


Apesar do palco pequeno e a produção de um evento esportivo (ironic mode), a iluminação e o som estavam muito bons. Mas era um show pequeno, com um público restrito (mesmo sendo gratuito). Ai, que saudade do povo de Sampa que não pode ouvir falar de um show gratuito (menos Belo :OP).

Fotos tremidas devido os pulos insistentes!








(A minha música preferida... Parece que foi escrita para mim... rs)

Ah! Antes que me esqueça... Agora minhas postagens no Twitter vão aparecer no cantinho superior direito. Quem quiser me seguir, é só add @maximdigaia.
E também, estou recuperando algumas fotos antigas da minha família. Assim que estiverem prontas, eu vou postá-las no meu álbum virtual.

Beijo na bunda das crianças...

A Arte é Alegre?

Fala galera!

Esta semana, temos um texto para ler e debater na próxima quinta-feira. Recomendo que baixem  o texto no link, leiam com muita atenção e escrevam suas perguntas para não deixar passar a oportunidade de falá-las em aula! Boa leitura e bons estudos!

Download aqui.

A arte é alegre?
Theodor W. Adorno

1
O prólogo ao Wallenstein, de Schiller, termina com o seguinte verso: "Séria é a vida,
alegre é a arte". Foi inspirada pelos versos de Ovídio, em Tristia: "Vita verecunda est,
Musa jocosa mihi", ou "Minha vida é contida, a musa me é um divertimento". Talvez se
possa atribuir um intento a Ovídio, o alegre poeta clássico. Ele, cuja vida era tão liberta
que pareceu insuportável ao regime de Augusto, piscasse gaiatamente a seus patronos,
pois ao mesmo tempo em que compunha sua alegre obra literária Ars Amandi simulava
certo arrependimento para dar a entender que estava resolvido a assumir uma vida de
seriedade, pois retornava do exílio. Para ele, isso era quase um pedido de perdão. Mas
Schiller, poeta oficial do idealismo alemão, não queria tocar nessa disputa latina. Sua
afirmativa aponta o dedo, mas não indica nada. Por isso, torna-se plenamente ideológica
e passa a integrar o tesouro doméstico do burguês, como citação disponível para
qualquer ocasião apropriada. Pois confirma a estabelecida e popular distinção entre
trabalho e tempo livre. Algo que remonta aos prosaicos tormentos do trabalho escravo e
à bem justificada aversão por ele afirma-se como lei eterna de duas esferas claramente
separadas. Nenhuma deve imiscuir-se na outra. Justamente por seu edificante
descompromisso, a arte deve ser incorporada à vida burguesa e a ela subordinada como
seu complemento antagônico. Já se pode prever a organização do tempo livre que daí
resultará: um Jardim de Elísio, onde crescem as rosas celestes, que deverão ser cuidadas
pelas mulheres em suas vidas terrenas, tão abomináveis. Ao filósofo idealista oculta-se
a possibilidade de que as coisas possam em algum tempo se transformarem realmente.
Ele está preocupado com os efeitos da arte. Com toda a nobreza de seus gestos, Schiller
no fundo antecipa a situação da indústria cultural quando a arte é receitada como
vitaminas a cansados homens de negócios. Hegel foi, no auge do idealismo alemão, o
primeiro que se opôs a uma estética de resultados que vinha desde o século XVIII e que
incluía Kant, defendendo a afirmativa de que a arte não era um mecanismo para instruir
ou para ser , à Horácio, um deleite.
2
Mas há algo de verdade na trivialidade da alegria da arte. Se ela não fosse, sob alguma
mediação qualquer, fonte de alegria para muitos homens, não teria conseguido
sobreviver na mera existência que contradiz e a que opõe resistência. Mas isto não lhe é
algo do exterior e, sim, uma parte integrante de sua própria definição. Embora não se
refira à sociedade, a fórmula kantiana de "finalidade sem fim" alude a isto. A nãofinalidade
da arte é escapar da coerção da auto-preservação. A arte incorpora algo como
liberdade no seio da não-liberdade. O fato de, por sua própria existência, desviar-se do
caminho da dominação a coloca como parceira de uma promessa de felicidade, que ela,
de certa maneira, expressa em meio ao desespero. Mesmo nas peças de Beckett, a
cortina se levanta como num cenário de Natal. Em seu esforço para se desembaraçar de
seus elementos miméticos, a arte trabalha em vão para libertar-se do resíduo de prazer,
suspeito de trazer um toque de concordância. Por tais razões, a tese da alegria da arte
tem que ser tomada num sentido muito preciso. Vale para a arte como um todo, não para
trabalhos individuais. Estes podem ser totalmente destituídos de alegria, em
conformidade com os horrores da realidade. O alegre na arte é, se quisermos, o contrário do que se poderia levianamente assumir como tal: não se trata de seu
conteúdo, mas de seu procedimento, do abstrato de que sobretudo é arte por abrir-se à
realidade cuja violência ao mesmo tempo denuncia. Daí o pensamento do filósofo
Schiller, que reconheceu a alegria da arte no lúdico e não em seu conteúdo espiritual,
mesmo quando transcenda o idealismo. A priori, antes de suas obras, a arte é uma crítica
da feroz seriedade que a realidade impõe sobre os seres humanos. Ao dar nome a esse
estado de coisas, a arte acredita que está soltando amarras. Eis sua alegria e também,
sem dúvida, sua seriedade ao modificar a consciência existente.
3
Mas a arte, como forma de conhecimento recebe todo seu material e suas formas da
realidade – em especial da sociedade – para transformá-la, acaba embaraçando-se em
contradições irreconciliáveis. Sua profundidade mede-se pelo fato de poder ou não, pela
reconciliação que suas leis formais trazem às contradições, destacar a real
irreconciliação. Vibra a contradição em suas mais remotas mediações como nos mais
extremos pianíssimos da música estrondam os horrores da realidade. Onde a fé na
cultura canta, com futilidade, louvores da harmonia musical, como em Mozart, esta
mostra uma dissonância quanto às dissonâncias da realidade, as quais toma como
conteúdo. Eis a tristeza em Mozart. Somente pela transformação do contraditório como
negativamente preservado, é que a arte se realiza, o que é desmentido assim que a arte é
glorificada como algo que ultrapassa o que existe, independente de seu contrário. As
tentativas de definir o que seja kitsch costumam falhar, mas talvez não fosse a pior
definição aquela que tomasse como critério do válido ou do kitsch o fato de que uma
obra de arte, ao expressar oposição à realidade, consiga dar forma à consciência da
contradição ou opte pela ilusão de que a dissolve. É, com esse critério, que se deve ver a
seriedade de toda obra de arte. Como algo que escapa da realidade e, no entanto, nela
está imersa, a arte vibra entre a seriedade e a alegria. É esta tensão que constitui a arte.
4
O significado desse movimento contraditório entre a alegria e a seriedade da arte – sua
dialética – pode ser explicado com simplicidade através de dois dísticos de Hölderlin,
que o poeta – intencionalmente, com certeza – colocou juntos. O primeiro, intitulado
"Sofocles", diz:
"Muitos tentam, em vão, dizer o mais alegre alegremente
E eis que, então, se expressa a mim, tão tristemente"2
A alegria do trágico deve ser buscada não no conteúdo místico de seus dramas, talvez
nem mesmo na reconciliação que ele confere ao mito, mas, de preferência, no que seu
dizer, no seu expressar-se3. As duas expressões sublinhadas estão empregadas
enfaticamente nos versos de Hölderlin.
O segundo dístico selecionado traz o título de "O engraçadinho":
"Sempre brincam e fazem piadas? Precisam? Oh, amigos! A mim
atinge-me a alma, pois só os desesperados fazem assim!"
Onde a arte se pretende por si mesma ser alegre e, com isso, tenta adaptar-se a um uso a
que, segundo Hölderlin, nada de sagrado pode mais servir, acaba reduzida a simples
necessidade humana, traindo seu conteúdo de verdade. Sua vivacidade disciplinada
adapta-se ao mecanismo do mundo. Encoraja os seres a se deixarem levar pelo que é
status quo, a colaborar. Eis a forma do desespero objetivo. Se tomamos o dístico com
seu devido peso, indica o caráter afirmativo da arte. Desde aquela época, sob o ditames
da indústria cultural, o caráter afirmativo da arte tornou-se onipresente e a brincadeira
de espírito apenas uma irônica careta dos anúncios de propaganda.
5
Pois a relação entre o sério e o alegre da arte submete-se a uma dinâmica histórica. O
que se pode chamar de alegre na arte é algo que surge, algo impensável nas obras
arcaicas ou de conteúdo estritamente teológico. O alegre na arte pressupõe algo como
liberdade urbana, o que não surge na burguesia inicial, como em Boccaccio, Chaucer,
Rabelais e em Dom Quixote, mas já se faz presente como o elemento que períodos
posteriores denominam de clássicos, como distintos do arcaico. O modo como a arte se
liberta do obscuro e desesperado mito é essencialmente um processo, não uma escolha
fundamental e imutável entre o sério e o alegre. É na alegria da arte que a subjetividade,
de início, se conhece em seu próprio interior e se torna consciente. É pela alegria que ela
se liberta do enredamento e retorna a si mesma. A alegria tem algo da disponibilidade
burguesa, embora compartilhe também do destino histórico da burguesia. O que já foi
cômico torna-se irrecuperavelmente estúpido; os mais tardios degeneram-se em amável
comportamento de cumplicidade. Por fim, torna-se intolerável. Quem poderia agora rir
ainda de Dom Quixote e de sua sádica ironia sobre que se opõe ao princípio de realidade
do burguês? O que nas comédias de Aristófanes – hoje, como ontem, geniais – deve ser
considerado cômico tornou-se um enigma; a igualdade entre o grosseiro e o cômico só
permanece ainda nas regiões provincianas. Quanto mais profundamente a sociedade
fracassa na reconciliação que o espírito burguês prometeu como Esclarecimento do
mito, tanto mais o cômico é relegado ao Orcus5 e o riso, outrora a imagem da
humanidade, regride ao desumano.
6
Desde que a arte foi tomada pelo freio da indústria cultural e posta entre os bens de
consumo, sua alegria se tornou sintética, falsa, enfeitiçada. Nada de alegre é compatível
com o arbitrariamente imposto. A pacificada relação da alegria à natureza não tolera
manipulações e cálculos. A distinção que a linguagem faz entre a graça e o gracejo dá
conta exatamente desse fato. Onde hoje se vê o divertido é deturpado por ter sido
imposto, até os limites ominosos do "no entanto" próprio das tragédias que se consolam
de que a vida é assim mesma. A arte, que não é mais possível se não for reflexiva, deve
renunciar por si mesma à alegria. A isto é forçada pelo que aconteceu recentemente. A
afirmativa de que após Auschwitz não é mais possível escrever poesia, não deve ser
cegamente interpretada, mas com certeza depois que Auschwitz se fez possível e que
permanece possível no futuro previsível, a alegria despreocupada na arte não é mais
concebível. Objetivamente se degenera em cinismo, independentemente de quanto se
apóie na bondade e compreensão humanas. Afinal de contas, esta impossibilidade foi
sentida pela grande literatura, primeiramente por Baudelaire quase um século antes da
catástrofe européia, e depois por Nietzsche bem como pela renúncia ao humor do
Círculo Literário de Stefan George. O humor se converteu em polêmica paródia. Ali ele encontra um refúgio temporário enquanto permanecer irreconciliável, sem levar em
consideração o conceito de reconciliação que antes era seu parceiro. Pouco a pouco, a
forma polêmica do humor também se põe em questão. Não pode mais contar que será
compreendida e a polêmica, entre as formas artísticas, não pode sobreviver no vazio. Há
alguns anos, houve debates sobre a questão de se saber se o fascismo poderia ser
apresentado em formas cômicas ou paródicas sem que isso constituísse um ultraje a suas
vítimas. É indiscutível o caráter de tolice, de farsa, de artigo de qualidade inferior de
que se revestem os elos entre Hitler e seus adeptos de um lado e a imprensa marron e os
dedos-duros de outro lado. Não dá para rir disso. A realidade sangrenta não era um
espírito bom ou mal de que se pudesse caçoar. Eram ainda os bons tempos quando, com
esconderijos e safadezas num sistema de horror, Hasek escreveu Schwejk. Mas
comédias sobre o fascismo iam se tornar cúmplices do tolo modo de pensar que
considerou esse regime derrotado por antecipação porque os batalhões mais fortes da
história a ele se opunham. Acolher a posição dos vencedores não convém aos
adversários do fascismo, que têm o dever de não se assemelharem em nada com aqueles
que se entrincheiram naquelas posições. As forças históricas que produzem o terror,
nascem da própria estrutura social. Não são de maneira alguma superficiais e são
poderosas demais para que alguém se ponha a tratá-las como se estivesse com a história
atrás de si e que os Führers fossem, de fato, os palhaços cujas falas assassinas pudessem
equiparar-se a disparates.
7
Porque, além de tudo, o momento da alegria na liberdade da arte advém da mera
existência, que mesmo as obras desesperadas – e sobretudo essas – demonstram: o
momento da alegria ou do cômico não se deixa simplesmente expulsar no curso da
história. Ele sobrevive em sua autocrítica, como o humor sobre o humor. As vanguardas
das obras de arte contemporâneas com traços sem sentido e tolos, que tanto irritam os
que possuem uma visão positivista, não são exatamente regressão da arte a um estágio
infantil mas sobretudo julgamentos bem humorados sobre o humor. A obra-mestra de
Wedekind contra o editor de simplizissimus traz o subtítulo de "Sátira da sátira". Há
algo de similar com Kafka, cuja prosa chocante é recebida por muitos de seus
intérpretes, dentre os quais Thomas Mann, como humor e cujas relações com Hasek está
sendo objeto de estudo por pesquisadores eslovacos. Em especial diante das peças de
Beckett, a categoria do trágico cede lugar à risada, pois suas peças cortam todo humor
que aceite o status quo. Elas manifestam um estado de consciência que não mais admite
a alternativa entre sério e alegre e nem tampouco a mista tragicomédia. O trágico
dissolve-se porque são evidentemente inconseqüentes as demandas de uma
subjetividade que deveria ser trágica. No lugar da risada instala-se o choro sem
lágrimas, o choro seco. O lamento se tornou a tristeza dos olhos ocos e vazios.
Resgatado é o humor nas peças de Beckett porque infectam com risadas sobre o risível
do rir e sobre o desespero. Esse processo se identifica à redução artística, uma trilha que
leva de uma sobrevivência mínima a um mínimo de sobrevivência, que ainda resta. Esse
mínimo atenua, talvez para sobreviver-lhe, a catástrofe histórica.
8
Na arte contemporânea faz-se evidente um definhar-se da alternativa entre o alegre e o
sério, entre o trágico e o cômico e, quase, da vida e da morte. Com isso, a arte nega todo
o seu passado, sem dúvida porque a costumeira alternativa expressa uma situação fendida entre a felicidade da vida que continua e a catástrofe, que é o meio de sua
sobrevivência. A arte que está além do alegre e do sério pode ser tanto uma cifra da
reconciliação quanto do terror, dado o completo desencantamento do mundo. Tal arte
corresponde tanto ao desgosto perante a onipresença, seja aberta ou oculta, que faz
propaganda da existência, quanto ao drama de alto coturno que, pela repetição do
sofrimento, novamente toma partido pela imutabilidade. Diante do passado
recentíssimo, a arte não pode ser mais alegre tanto quanto não pode ser séria por
completo. Dúvidas se levantam quanto ao fato da arte ter sido mesmo tão séria quanto a
cultura propagou aos homens. A arte não pode mais igualar a expressão da tristeza com
o que há de mais alegre, como acontecia na poesia de Hölderlin, que se considerava
afinado com o Weltgeist.6 O conteúdo de verdade da alegria parece ter se tornado
inatingível. Que os gêneros se estejam borrando, que o gesto trágico pareça cômico e
que o cômico se torne melancólico combina com isso tudo. O trágico decai porque
levanta uma demanda pelo significado positivo da negatividade, o significado que a
filosofia chama de negação positiva. Essa demanda não pode ser satisfeita. A arte que
penetra no desconhecido, a única forma agora possível, não é séria nem alegre; a
terceira oportunidade, no entanto, está encoberta como se mergulhada no nada, cujas
figuras são descritas pelas obras de arte de vanguarda.
Notas
1 – "Ist die Kunst heiter?" integra os ensaios de Noten zur Literatur. Gesammelte
Schriften 11. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996: 599-606. Tradução de Newton
Ramos-de-Oliveira e revisão pela Equipe do Potencial Pedagógico da Teoria Crítica
(Antonio Álvaro Zuin, Bruno Pucci e o tradutor).
2 – No original: "Viele versuchen umsonst das Freudigste freudig zu sagen
Hier spricht endlich es mir, hier in der Trauer sich aus"
3 – Contrapõe os verbos "sagen" e "aussprechen" no dístico acima.
4 – No original: "Immer spielt ihr und scherzt? Ihr müßt! O Freude! Mir geht diß
in die Seele, denn diß müssen Verzweifelte nur".
5 – Orcus – na mitologia romana, o reino das sombras, as regiões infernais. (Nota de
NRO)
6 – Weltgeist: espírito do tempo. (nota de NRO)

A Arte é Alegre?

Fala galera!

Esta semana, temos um texto para ler e debater na próxima quinta-feira. Recomendo que baixem  o texto no link, leiam com muita atenção e escrevam suas perguntas para não deixar passar a oportunidade de falá-las em aula! Boa leitura e bons estudos!

Download aqui.

A arte é alegre?
Theodor W. Adorno

1
O prólogo ao Wallenstein, de Schiller, termina com o seguinte verso: "Séria é a vida,
alegre é a arte". Foi inspirada pelos versos de Ovídio, em Tristia: "Vita verecunda est,
Musa jocosa mihi", ou "Minha vida é contida, a musa me é um divertimento". Talvez se
possa atribuir um intento a Ovídio, o alegre poeta clássico. Ele, cuja vida era tão liberta
que pareceu insuportável ao regime de Augusto, piscasse gaiatamente a seus patronos,
pois ao mesmo tempo em que compunha sua alegre obra literária Ars Amandi simulava
certo arrependimento para dar a entender que estava resolvido a assumir uma vida de
seriedade, pois retornava do exílio. Para ele, isso era quase um pedido de perdão. Mas
Schiller, poeta oficial do idealismo alemão, não queria tocar nessa disputa latina. Sua
afirmativa aponta o dedo, mas não indica nada. Por isso, torna-se plenamente ideológica
e passa a integrar o tesouro doméstico do burguês, como citação disponível para
qualquer ocasião apropriada. Pois confirma a estabelecida e popular distinção entre
trabalho e tempo livre. Algo que remonta aos prosaicos tormentos do trabalho escravo e
à bem justificada aversão por ele afirma-se como lei eterna de duas esferas claramente
separadas. Nenhuma deve imiscuir-se na outra. Justamente por seu edificante
descompromisso, a arte deve ser incorporada à vida burguesa e a ela subordinada como
seu complemento antagônico. Já se pode prever a organização do tempo livre que daí
resultará: um Jardim de Elísio, onde crescem as rosas celestes, que deverão ser cuidadas
pelas mulheres em suas vidas terrenas, tão abomináveis. Ao filósofo idealista oculta-se
a possibilidade de que as coisas possam em algum tempo se transformarem realmente.
Ele está preocupado com os efeitos da arte. Com toda a nobreza de seus gestos, Schiller
no fundo antecipa a situação da indústria cultural quando a arte é receitada como
vitaminas a cansados homens de negócios. Hegel foi, no auge do idealismo alemão, o
primeiro que se opôs a uma estética de resultados que vinha desde o século XVIII e que
incluía Kant, defendendo a afirmativa de que a arte não era um mecanismo para instruir
ou para ser , à Horácio, um deleite.
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Mas há algo de verdade na trivialidade da alegria da arte. Se ela não fosse, sob alguma
mediação qualquer, fonte de alegria para muitos homens, não teria conseguido
sobreviver na mera existência que contradiz e a que opõe resistência. Mas isto não lhe é
algo do exterior e, sim, uma parte integrante de sua própria definição. Embora não se
refira à sociedade, a fórmula kantiana de "finalidade sem fim" alude a isto. A nãofinalidade
da arte é escapar da coerção da auto-preservação. A arte incorpora algo como
liberdade no seio da não-liberdade. O fato de, por sua própria existência, desviar-se do
caminho da dominação a coloca como parceira de uma promessa de felicidade, que ela,
de certa maneira, expressa em meio ao desespero. Mesmo nas peças de Beckett, a
cortina se levanta como num cenário de Natal. Em seu esforço para se desembaraçar de
seus elementos miméticos, a arte trabalha em vão para libertar-se do resíduo de prazer,
suspeito de trazer um toque de concordância. Por tais razões, a tese da alegria da arte
tem que ser tomada num sentido muito preciso. Vale para a arte como um todo, não para
trabalhos individuais. Estes podem ser totalmente destituídos de alegria, em
conformidade com os horrores da realidade. O alegre na arte é, se quisermos, o contrário do que se poderia levianamente assumir como tal: não se trata de seu
conteúdo, mas de seu procedimento, do abstrato de que sobretudo é arte por abrir-se à
realidade cuja violência ao mesmo tempo denuncia. Daí o pensamento do filósofo
Schiller, que reconheceu a alegria da arte no lúdico e não em seu conteúdo espiritual,
mesmo quando transcenda o idealismo. A priori, antes de suas obras, a arte é uma crítica
da feroz seriedade que a realidade impõe sobre os seres humanos. Ao dar nome a esse
estado de coisas, a arte acredita que está soltando amarras. Eis sua alegria e também,
sem dúvida, sua seriedade ao modificar a consciência existente.
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Mas a arte, como forma de conhecimento recebe todo seu material e suas formas da
realidade – em especial da sociedade – para transformá-la, acaba embaraçando-se em
contradições irreconciliáveis. Sua profundidade mede-se pelo fato de poder ou não, pela
reconciliação que suas leis formais trazem às contradições, destacar a real
irreconciliação. Vibra a contradição em suas mais remotas mediações como nos mais
extremos pianíssimos da música estrondam os horrores da realidade. Onde a fé na
cultura canta, com futilidade, louvores da harmonia musical, como em Mozart, esta
mostra uma dissonância quanto às dissonâncias da realidade, as quais toma como
conteúdo. Eis a tristeza em Mozart. Somente pela transformação do contraditório como
negativamente preservado, é que a arte se realiza, o que é desmentido assim que a arte é
glorificada como algo que ultrapassa o que existe, independente de seu contrário. As
tentativas de definir o que seja kitsch costumam falhar, mas talvez não fosse a pior
definição aquela que tomasse como critério do válido ou do kitsch o fato de que uma
obra de arte, ao expressar oposição à realidade, consiga dar forma à consciência da
contradição ou opte pela ilusão de que a dissolve. É, com esse critério, que se deve ver a
seriedade de toda obra de arte. Como algo que escapa da realidade e, no entanto, nela
está imersa, a arte vibra entre a seriedade e a alegria. É esta tensão que constitui a arte.
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O significado desse movimento contraditório entre a alegria e a seriedade da arte – sua
dialética – pode ser explicado com simplicidade através de dois dísticos de Hölderlin,
que o poeta – intencionalmente, com certeza – colocou juntos. O primeiro, intitulado
"Sofocles", diz:
"Muitos tentam, em vão, dizer o mais alegre alegremente
E eis que, então, se expressa a mim, tão tristemente"2
A alegria do trágico deve ser buscada não no conteúdo místico de seus dramas, talvez
nem mesmo na reconciliação que ele confere ao mito, mas, de preferência, no que seu
dizer, no seu expressar-se3. As duas expressões sublinhadas estão empregadas
enfaticamente nos versos de Hölderlin.
O segundo dístico selecionado traz o título de "O engraçadinho":
"Sempre brincam e fazem piadas? Precisam? Oh, amigos! A mim
atinge-me a alma, pois só os desesperados fazem assim!"
Onde a arte se pretende por si mesma ser alegre e, com isso, tenta adaptar-se a um uso a
que, segundo Hölderlin, nada de sagrado pode mais servir, acaba reduzida a simples
necessidade humana, traindo seu conteúdo de verdade. Sua vivacidade disciplinada
adapta-se ao mecanismo do mundo. Encoraja os seres a se deixarem levar pelo que é
status quo, a colaborar. Eis a forma do desespero objetivo. Se tomamos o dístico com
seu devido peso, indica o caráter afirmativo da arte. Desde aquela época, sob o ditames
da indústria cultural, o caráter afirmativo da arte tornou-se onipresente e a brincadeira
de espírito apenas uma irônica careta dos anúncios de propaganda.
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Pois a relação entre o sério e o alegre da arte submete-se a uma dinâmica histórica. O
que se pode chamar de alegre na arte é algo que surge, algo impensável nas obras
arcaicas ou de conteúdo estritamente teológico. O alegre na arte pressupõe algo como
liberdade urbana, o que não surge na burguesia inicial, como em Boccaccio, Chaucer,
Rabelais e em Dom Quixote, mas já se faz presente como o elemento que períodos
posteriores denominam de clássicos, como distintos do arcaico. O modo como a arte se
liberta do obscuro e desesperado mito é essencialmente um processo, não uma escolha
fundamental e imutável entre o sério e o alegre. É na alegria da arte que a subjetividade,
de início, se conhece em seu próprio interior e se torna consciente. É pela alegria que ela
se liberta do enredamento e retorna a si mesma. A alegria tem algo da disponibilidade
burguesa, embora compartilhe também do destino histórico da burguesia. O que já foi
cômico torna-se irrecuperavelmente estúpido; os mais tardios degeneram-se em amável
comportamento de cumplicidade. Por fim, torna-se intolerável. Quem poderia agora rir
ainda de Dom Quixote e de sua sádica ironia sobre que se opõe ao princípio de realidade
do burguês? O que nas comédias de Aristófanes – hoje, como ontem, geniais – deve ser
considerado cômico tornou-se um enigma; a igualdade entre o grosseiro e o cômico só
permanece ainda nas regiões provincianas. Quanto mais profundamente a sociedade
fracassa na reconciliação que o espírito burguês prometeu como Esclarecimento do
mito, tanto mais o cômico é relegado ao Orcus5 e o riso, outrora a imagem da
humanidade, regride ao desumano.
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Desde que a arte foi tomada pelo freio da indústria cultural e posta entre os bens de
consumo, sua alegria se tornou sintética, falsa, enfeitiçada. Nada de alegre é compatível
com o arbitrariamente imposto. A pacificada relação da alegria à natureza não tolera
manipulações e cálculos. A distinção que a linguagem faz entre a graça e o gracejo dá
conta exatamente desse fato. Onde hoje se vê o divertido é deturpado por ter sido
imposto, até os limites ominosos do "no entanto" próprio das tragédias que se consolam
de que a vida é assim mesma. A arte, que não é mais possível se não for reflexiva, deve
renunciar por si mesma à alegria. A isto é forçada pelo que aconteceu recentemente. A
afirmativa de que após Auschwitz não é mais possível escrever poesia, não deve ser
cegamente interpretada, mas com certeza depois que Auschwitz se fez possível e que
permanece possível no futuro previsível, a alegria despreocupada na arte não é mais
concebível. Objetivamente se degenera em cinismo, independentemente de quanto se
apóie na bondade e compreensão humanas. Afinal de contas, esta impossibilidade foi
sentida pela grande literatura, primeiramente por Baudelaire quase um século antes da
catástrofe européia, e depois por Nietzsche bem como pela renúncia ao humor do
Círculo Literário de Stefan George. O humor se converteu em polêmica paródia. Ali ele encontra um refúgio temporário enquanto permanecer irreconciliável, sem levar em
consideração o conceito de reconciliação que antes era seu parceiro. Pouco a pouco, a
forma polêmica do humor também se põe em questão. Não pode mais contar que será
compreendida e a polêmica, entre as formas artísticas, não pode sobreviver no vazio. Há
alguns anos, houve debates sobre a questão de se saber se o fascismo poderia ser
apresentado em formas cômicas ou paródicas sem que isso constituísse um ultraje a suas
vítimas. É indiscutível o caráter de tolice, de farsa, de artigo de qualidade inferior de
que se revestem os elos entre Hitler e seus adeptos de um lado e a imprensa marron e os
dedos-duros de outro lado. Não dá para rir disso. A realidade sangrenta não era um
espírito bom ou mal de que se pudesse caçoar. Eram ainda os bons tempos quando, com
esconderijos e safadezas num sistema de horror, Hasek escreveu Schwejk. Mas
comédias sobre o fascismo iam se tornar cúmplices do tolo modo de pensar que
considerou esse regime derrotado por antecipação porque os batalhões mais fortes da
história a ele se opunham. Acolher a posição dos vencedores não convém aos
adversários do fascismo, que têm o dever de não se assemelharem em nada com aqueles
que se entrincheiram naquelas posições. As forças históricas que produzem o terror,
nascem da própria estrutura social. Não são de maneira alguma superficiais e são
poderosas demais para que alguém se ponha a tratá-las como se estivesse com a história
atrás de si e que os Führers fossem, de fato, os palhaços cujas falas assassinas pudessem
equiparar-se a disparates.
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Porque, além de tudo, o momento da alegria na liberdade da arte advém da mera
existência, que mesmo as obras desesperadas – e sobretudo essas – demonstram: o
momento da alegria ou do cômico não se deixa simplesmente expulsar no curso da
história. Ele sobrevive em sua autocrítica, como o humor sobre o humor. As vanguardas
das obras de arte contemporâneas com traços sem sentido e tolos, que tanto irritam os
que possuem uma visão positivista, não são exatamente regressão da arte a um estágio
infantil mas sobretudo julgamentos bem humorados sobre o humor. A obra-mestra de
Wedekind contra o editor de simplizissimus traz o subtítulo de "Sátira da sátira". Há
algo de similar com Kafka, cuja prosa chocante é recebida por muitos de seus
intérpretes, dentre os quais Thomas Mann, como humor e cujas relações com Hasek está
sendo objeto de estudo por pesquisadores eslovacos. Em especial diante das peças de
Beckett, a categoria do trágico cede lugar à risada, pois suas peças cortam todo humor
que aceite o status quo. Elas manifestam um estado de consciência que não mais admite
a alternativa entre sério e alegre e nem tampouco a mista tragicomédia. O trágico
dissolve-se porque são evidentemente inconseqüentes as demandas de uma
subjetividade que deveria ser trágica. No lugar da risada instala-se o choro sem
lágrimas, o choro seco. O lamento se tornou a tristeza dos olhos ocos e vazios.
Resgatado é o humor nas peças de Beckett porque infectam com risadas sobre o risível
do rir e sobre o desespero. Esse processo se identifica à redução artística, uma trilha que
leva de uma sobrevivência mínima a um mínimo de sobrevivência, que ainda resta. Esse
mínimo atenua, talvez para sobreviver-lhe, a catástrofe histórica.
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Na arte contemporânea faz-se evidente um definhar-se da alternativa entre o alegre e o
sério, entre o trágico e o cômico e, quase, da vida e da morte. Com isso, a arte nega todo
o seu passado, sem dúvida porque a costumeira alternativa expressa uma situação fendida entre a felicidade da vida que continua e a catástrofe, que é o meio de sua
sobrevivência. A arte que está além do alegre e do sério pode ser tanto uma cifra da
reconciliação quanto do terror, dado o completo desencantamento do mundo. Tal arte
corresponde tanto ao desgosto perante a onipresença, seja aberta ou oculta, que faz
propaganda da existência, quanto ao drama de alto coturno que, pela repetição do
sofrimento, novamente toma partido pela imutabilidade. Diante do passado
recentíssimo, a arte não pode ser mais alegre tanto quanto não pode ser séria por
completo. Dúvidas se levantam quanto ao fato da arte ter sido mesmo tão séria quanto a
cultura propagou aos homens. A arte não pode mais igualar a expressão da tristeza com
o que há de mais alegre, como acontecia na poesia de Hölderlin, que se considerava
afinado com o Weltgeist.6 O conteúdo de verdade da alegria parece ter se tornado
inatingível. Que os gêneros se estejam borrando, que o gesto trágico pareça cômico e
que o cômico se torne melancólico combina com isso tudo. O trágico decai porque
levanta uma demanda pelo significado positivo da negatividade, o significado que a
filosofia chama de negação positiva. Essa demanda não pode ser satisfeita. A arte que
penetra no desconhecido, a única forma agora possível, não é séria nem alegre; a
terceira oportunidade, no entanto, está encoberta como se mergulhada no nada, cujas
figuras são descritas pelas obras de arte de vanguarda.
Notas
1 – "Ist die Kunst heiter?" integra os ensaios de Noten zur Literatur. Gesammelte
Schriften 11. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996: 599-606. Tradução de Newton
Ramos-de-Oliveira e revisão pela Equipe do Potencial Pedagógico da Teoria Crítica
(Antonio Álvaro Zuin, Bruno Pucci e o tradutor).
2 – No original: "Viele versuchen umsonst das Freudigste freudig zu sagen
Hier spricht endlich es mir, hier in der Trauer sich aus"
3 – Contrapõe os verbos "sagen" e "aussprechen" no dístico acima.
4 – No original: "Immer spielt ihr und scherzt? Ihr müßt! O Freude! Mir geht diß
in die Seele, denn diß müssen Verzweifelte nur".
5 – Orcus – na mitologia romana, o reino das sombras, as regiões infernais. (Nota de
NRO)
6 – Weltgeist: espírito do tempo. (nota de NRO)

Neo-Mecenato




Fala galera!

Esta semana vamos continuar revisitando momentos históricos e movimentos artísticos para entender melhor o que é este "Neo-Mecenato".

Estas aulas são expositivas, entretanto, para os curiosos e para quem gosta de ter todo o material, estou disponibilizando aqui os slides do conteúdo a ser trabalhado, ok?

Um grande abraço e bons estudos!