Não há nada de novo De novo, de novo Sozinho, sozinho de novo Malditos sejam os que riem de mim E não se afligem com a minha agonia Torturante e sofrida hegemonia Que domina todos os setores de todas as seções Hegemônico, sim Tudo deve ser feito ao gosto e supervisão Das pessoas que eu odeio Malditos sejam, malditos sejam
Te espero na árvore. Hoje, às oito e meia da noite. Sentado, no mesmo lugar de sempre. Tocando gaita, ou flauta, ou o que for. Te espero, e te espero. Só para vê-la com meu pior inimigo; meu melhor amigo. Chorei lágrimasverdadeiras e falsas, a troco de nada. Só para me ver sozinho.
Nunca tiver lugar na sua vida. Nunca! Mesmo assim, insisti. Meu Deus, como insisti. Lutei com todas minhas forças, até o fim de todas minhas reservas. Só para vê-la com meu pior inimigo; meu melhor amigo.
Ora, seu pai. Ora, sua mãe. Ora, você. Ninguém fez questão de me perguntar o que eu achava de tudo isso. Mas, surpresa foi perceber que nem você se importava com a minha ida e vinda, em sua vida. Nem você, nem você.
Aqueles dias no portão; você dentro, eu fora; não fazem parte de sua memória, com certeza. Mas, eu, não me esqueci de nada. Absolutamente nada!
Nem do seu desprezo. Nem da sua falta de zelo por nós. Absolutamente nada.
Você nunca mereceu minhas rimas, trovadas, cantadas, ou o que quer que fosse. Mesmo assim, eu lhe dei.
Você nunca mereceu meu canto, meu lamento, sonhos, ou o que quer que fosse. Mesmo assim, eu lhe dei.
Minha vida nunca caminhou para frente, pois sempre olhei para trás.
Sempre volta para trás. Sempre.
Lembro do Fábio, do Renato, do Anselmo, do Dalton, da Cris e de mim. Todos fizeram parte da sua vida. Menos eu, menos eu.
O Fábio sabe, o Renato sabe, o Anselmo sabe, o Dalton sabe, a Cris sabe e todo mundo sabe. Todo mundo sabe, que, todo mundo cabe em sua vida, menos eu. Menos eu!
Te espero na árvore. Hoje, às oito e meia da noite. Sentado, no mesmo lugar de sempre. Tocando gaita, ou flauta, ou o que for. Te espero, e te espero.
Cansado de ficar tanto tempo sem escrever, e tentando encontrar um novo modo de me expressar por palavras, resolvi postar alguma coisa.
Dias atrás, notei que eu não havia escrito muita coisa para minha namorada. Resolvi, então, escrever; mas não uma carta de amor, pura e simplesmente. Acabou surgindo um conto.
Espero que apreciem
Revelações Fernando César Oliveira de Carvalho (Escrito ao som de Mana - Combatiente)
A visão escura, não o deixava entender onde estaria. Sua mente confusa, não se lembrava sequer quem seria ele próprio. O formigamento trouxe a percepção do que seria seu corpo, mas algo estava diferente. Após esfregar os olhos, procurando trazer a visão da realidade, ele ficou observando suas próprias mãos, tentando entender de onde vinha aquela sensação estranha. Parecia-lhe ter controle total sobre seu corpo, mas a sensação que tinha era de que sua extensão ia além de seus membros, chegando ao ambiente em volta; como se o todo pudesse ser moldado a sua vontade de alguma forma.
Entretanto, ele percebe que não está sozinho. Uma voz metálica, estranha, soava ao longe, parecendo-lhe chamar o nome. Ele, ainda confuso, procurava entender porque daquela denominação, com som de ar passando em um encanamento de alumínio ou qualquer outro metal, soava inteligível aos seus ouvidos como um chamado. A voz, era firme e reconfortante, mas dava-lhe a impressão de ordem; sua língua, não era natural, mas totalmente compreensível.
Agora, ele percebe a desolação que há no ambiente em que se encontra. Ao mesmo tempo, familiar e reconhecível, mas também estranho e quase onírico. Um enorme deserto, de imensas proporções; terra plana, toda coberta de dunas de areia trazidas pelo vento. Mas, ao virar-se para a direção onde surgiu a voz estranha, ele percebe que, em meio à desolação, há uma multidão reunida. Como falanges militares, ela se reunia em imensos grupos, separados aparentemente por alguma hierarquia incompreensível. Todos estavam nus e armados com grandes cimitarras, longas lanças e escudos redondos, caminhando em direção ao horizonte. Mesmo à distância que estava, podia-se ver a luz dourada que era refletida pelos ornamentos de ouro de suas armas. As nuvens do céu moviam-se como que vivas, emoldurando o céu, quase como uma tempestade com vontade própria. O sol transpunha seu obstáculo sem esforço. Seu brilho transmitia uma radiação de calor e alegria, mas não era incômodo como as regiões desérticas, que sua quase inexistente lembrança poderia trazer. No entanto, era de uma luz imensamente maior do que poderia lembrar e, impressionantemente, não lhe cegava. Caminhando cambaleante, quase que se adaptando às pernas que pareciam não ser suas, ele vai em direção à multidão. Interrompido em sua sofrida caminhada, por um vulto que cortou sua fronte com um vôo rasante, teve sua visão tomada por um tom rubro de sangue escorrendo e cobrindo seus olhos. Caiu por terra de joelhos, ouvindo novamente a voz metálica:
- Mohammed! Agora tens o selo! Levantai, pois chegastes a hora de seu Jihad!
Limpando seus olhos com suas mãos cheias de areia, que transformam sua visão em uma massa incômoda e arranhadora, ele vislumbra algo que lhe traz terror e conforto; ao mesmo tempo. Suas crenças se fazem verdadeiras, pela matéria. À alguns centímetros do chão, plana um ser que ele acredita ser um anjo. Com o que seria o rosto coberto pela touca de um manto, a figura se estende, imponente à sua frente. Um homem de compleição física impressionante, com mais de dois metros de altura e que parece, não voar, mas flutuar no ar; visto que ele mal batia suas asas de imensa envergadura para manter-se planando.
- Tivestes fé, e serás recompensado. Mas, a hora das trombetas de Allah chegou! Colocai-se em seu posto, e veste-se de vossa fé, para que possa ser guiado ao seu destino! Se crerdes, vai e caminha com os seus! Mohammed, chegou vossa hora!
- Mas, quem és tu, ser de luz?
- Aqui não há títulos, filho do Homem. Caminharemos juntos, e combateremos o Inimigo, como irmãos.
- E o que faço, para caminhar contigo?
- Crerdes! Como nunca antes, depositai toda sua força em sua fé! Serás a espada do Senhor! Nascestes com esta missão; retornou dos mortos para cumpri-la. Oh! Olhai, olhai, filho do Homem! À sua retaguarda chegastes!
Tomado ainda pelo espanto, vira-se de modo quase instintivo, vendo uma nova legião de homens chegando onde estavam. Mas, estes eram diferentes. Eles vinham de olhos fechados, e suas vozes em oração pareciam poder ser ouvidas a quilômetros de distância. Estes vestiam robes brancos, e não tinham nada em suas mãos, deixando-as apertadas, juntas ao rosto. Seguiam um grupo de anjos, que em fila, pareciam direcionar a caminhada deles. - Veste-se de sua fé, e vá com os seus! – Disse-lhe o anjo, antes de alçar vôo em direção ao céu tempestuoso. Novamente, tomado pelo espanto e temor do desconhecido, agora percebe que o que se junta e se move acima de sua cabeça, não são nuvens, mas sim, anjos. Dos mais variados tipos, com suas vestes simples e suas peles metálicas, um sem número de asas sobrevoam aqueles que se juntam em terra. Brandindo, o que aos seus olhos humanos pareciam ser lâminas de fogo, voavam também em direção ao horizonte.
Apesar do movimento frenético e do som de bater de asas e orações que tomavam seus ouvidos, ele sentiu uma paz extrema. Abaixou sua cabeça e fechou os olhos, agradecendo ao seu Deus por ter sido escolhido para aquele momento. - Não, não meu Deus! Nosso Senhor! – Ele disse a si mesmo, em voz baixa. Naquele momento, voltou a sentir um formigamento em seus membros, mas desta vez, acompanhado de um peso estranho. Ao abrir os olhos, deparou-se com uma daquelas cimitarras e um escudo em suas mãos, mas as armas não eram as detentoras do peso que sentia, mas suas próprias mãos e o poder que sua fé parecia imbuir a elas. Percebeu que seu corpo não mais era controlado por neurotransmissões em sinapses ocorridas em seu cérebro, mas por sua fé. Fé verdadeira. Sabia que se sua fé falhasse, estaria perdido. Mas, qual seria esta perdição? Morte eterna? Não sabia. A única certeza que tinha, era que o vazio que um dia tomava seu coração, em sua existência mortal, já não mais existia. Com a coragem que invadiu seu coração, saiu correndo em direção as falanges que se formavam à sua frente. Uma outra multidão era vista, mesmo que como alguns pontos vindos de diversas direções, que corriam para se juntar aos outros, aumentando o número daqueles que a fé carregava em direção ao destino incerto. Cada vez mais próximos, os homens e mulheres de robe, oravam com as vozes também cada vez mais potentes, lembrando as batidas dos tambores de guerra. Seu coração encheu-se, ao ser recepcionado por seus companheiros, em uma das falanges, que com sorrisos sinceros, demonstravam alegria ao verem mais um juntam-se a eles, que seguiam cantando louvores e glórias. Poderia identificar alguns dos rostos daqueles homens e mulheres nus, mas não sabia precisar de onde. Uma saudade matreira tomou-lhe a alma, dando-lhe força, e não tristeza. E com um som único, todos pararam de marchar.
À frente de todas as falanges, um daqueles seres voadores, parado, estancando o fluxo de homens, como um curativo em um ferimento, começou a falar em sua língua estranha, diante do silêncio dos homens que tiveram sua marcha interrompida. Antes que pudesse prestar atenção ao que lhes era falado, juntaram-se a ele, mais seis anjos, todos de pele prateada, que não portavam as espadas flamejantes, mas trombetas e as tocaram. O som surgido delas, não tinha ritmo; não lembrava sequer, o som de trombetas, parecendo mais mil vozes de crianças fazendo um chamado. O som preencheu todo o ar, seguido de um silêncio absoluto. Era como se todo o universo tivesse se calado para ouvir o anúncio daqueles instrumentos. Sem entender muito bem o que estava se passando, começou a esfregar os olhos novamente, tentando melhorar a visão do que estava acontecendo à frente. Quando, um calor tomou seu corpo e logo percebeu que o sol aumentava de intensidade, cada vez mais. Pareceu-lhe que o mesmo, se aproximava, atendendo o chamado das trombetas. Impossível! – ele pensou, rindo de seus próprios pensamentos. Todavia, não poderia estar mais enganado. Realmente, a luz que se intensificava, era por conta de sua aproximação, como se um cometa viesse na velocidade da luz, chocar-se contra a Terra, condenando todos. O que pode observar era que apesar da luz intensificar-se, ela não incomodava sua visão, e surgia de um único ponto. Um homem. Um homem sobre um cavalo branco, cavalgando no infinito, e de onde surgia toda a luz que lhes cobria e lhes dava calor. Este homem, de feições humanas, ostentava cabelos negros bem aparados, como sua barba. Olhava com compaixão todos os que estavam à sua frente. Onde seu olhar passava, parecia que estava olhando, cada um dos indivíduos ali presentes. E sem proferir uma única palavra, virou-se com seu cavalo em direção ao horizonte, cavalgando calmamente no ar. Também, espantados e maravilhados com aquela visão, todos os homens o seguiram, cantando e orando, mais alto do que antes. Aquela expressão de compaixão foi trocada por um cenho franzido, assim que vislumbrou o que havia em sua frente.
Mohammed, tentando entender o que se passava, olhou em direção ao horizonte, além da luz daquele homem, e pode perceber que não muito além dele, o céu começava a escurecer, e podia-se ver claramente o céu dividido em dia e noite, um dos lados com o sol preso em um turbilhão de nuvens de gafanhotos e a lua quase que toda coberta por outra nuvem de insetos asquerosos. Por um momento, ele teve a impressão de que estas nuvens tinham o formato de dragões. Do horizonte infinito, ele pode ver uma forma gigantesca aproximar-se do homem brilhante; uma forma horrenda e hedionda. Seu desejo naquela hora, foi de correr, mas buscou a força em sua fé e manteve-se ali. Sabia, era o Inimigo. O som de asas sobre a sua cabeça cessou, juntamente com as canções e orações, mas o rufar de asas ao longe, tomou seu lugar. Surgidos do chão, colocam-se ao lado da besta, do seu lado esquerdo, um dragão, e do lado direito, um cão. Ambos com sete cabeças. A tensão pode ser sentida no ar, com os músculos retesados, parecendo estar soltando pequenos estalos. Mas, o desespero toma conta do coração de Mohammed, que tenta com todo o esforço agarrar-se em sua fé, enquanto o homem à frente, debatia com aquela besta gigantesca. Ao ver-se cercado, ele apeia de seu cavalo, e num piscar de olhos, toma as mesmas proporções do seu confrontador. Mas, ele não o afronta. Apenas, o olha e parece colocar argumentos contra aqueles de seu contestador. Seres inúmeros, tão hediondos quanto seu mestre, lambem o que seria seus lábios e gritam caluniando-o e insultando-o, irrequietos, sobrevoando a área que ocupam, logo atrás da contenda-de-um-homem-só. Mas, alguma coisa acontece. A besta fala algo para o homem, e este, intensifica seu brilho. Seus cabelos tornam-se brancos e ficam esvoaçantes, mesmo sem vento. Há algo de errado. Sobre sua cabeça, Mohammed ouve gritos dos anjos que tomam posições de ataque e brandindo suas lâminas de fogo, que parecem crepitar à vontade de seus portadores. À sua frente, os seres horríveis, passam voando pelos interlocutores, ignorando-os e focando sua atenção nas falanges à sua frente.
Mohammed, perde a firmeza de sua mão. O horror que se direciona a ele é indescritível. Uma enorme horda daqueles seres, vêm em sua direção. O sentimento de auto-preservação o faz querer correr. Ele busca força em sua fé, mas ela não se mostra suficiente. Ele se vira para trás, e quando suas pernas começariam a propelir sua fuga, ele vê algo que clareia sua mente. Na primeira fila, daqueles homens com robes brancos, ele vê uma figura de olhos fechados em oração que lhe chama atenção. A pele morena e os cabelos escuros que caem sobre os ombros, lhe trazem lembranças. Lembranças. Lembranças de uma vida. Duas pessoas sentadas em um sofá, conversando, enquanto aquela figura acaricia seus cabelos. Eles riem. Eles se beijam. Os dois abraçados, encostados em um muro da residência daquela figura. Sorrisos, beijos e abraços. Felicidade. Vida. Ele a reconhece, quando ela abre seus olhos, e sem interromper sua oração, ela lhe sorri. Ele aperta a empunhadura de sua cimitarra, enquanto uma lágrima escorre em seu rosto. Ele vira-se sorrindo, e começa a correr na direção de seus adversários, gritando:
Letícia vivia em um mundo de luz e cores. Ela era relativamente nova, para os padrões de sua sociedade. Mas, estava na idade da observação e questionamento. Todos os dias, Letícia pegava o mesmo ônibus; vermelho e branco. Sempre no mesmo horário e com as mesmas pessoas, mesmo motorista e o mesmo cobrador; que sempre a cumprimentava da mesma forma: - Bom dia! Letícia, sempre entregava o mesmo valor, recebendo o mesmo troco; e sempre agradecia, dizendo um simples obrigado. Sentava-se no mesmo banco; no meio. Ali, ela deixava clara sua opinião: como ela mesmo afirma, ela é uma libertária de extrema direita e conservadora esquerdista. Nunca prestava muita atenção à sua volta, pois era sempre os mesmos assuntos e a mesma paisagem; mas, ela observava. As pessoas à esquerda do ônibus, cada um de uma cor e inúmeros tons, um vermelho, outro amarelo, verde... Ao lado direito, havia cores também, mas todas fracas, sem brilho; até mesmo, acinzentadas. Ela observava que algumas mulheres, com suas cores pastéis, carregavam os pequeninos no colo. Todos eram multicoloridos, como arco-íris que mudavam suas cores à todo momento, apenas com um leve movimento. Todas as crianças pequenas são assim. Com o tempo, adquirem uma única cor, vívida, que vão desbotando até tornarem-se acinzentadas e opacas. Ela resistia à idéia de que aquelas pessoas – e ela- eram apenas aspectos e reflexos de luz; que se esmaecem com o passar do tempo. Dia ou outro, alguma daquelas pessoas – ou mais de uma – aparecia com a cor mais vibrante, e até mesmo, com toques de outra cor. Ela falava que isso acontecia quando as pessoas haviam visto “o passarinho verde”; como em uma estória que seu avô havia lhe contado, quando era pequena. Quando estava só, sempre ria de suas conjecturas. Entretanto, morria de medo daquelas pessoas, que perdiam gradativamente suas cores e aparências, para entrar no mundo da pele acinzentada e paletós ou vestidos azul-marinho. Os jovens, apesar de coloridos, começavam pouco a pouco, à usar o mesmo corte de cabelo e as roupas azul-marinho. Pareciam fazer parte de algum sistema, algo imutável; ou que simplesmente, as pessoas não queriam mudar. Assim como ela, muitas pensam ou pensavam assim, mas esses pensamentos vão perdendo lugar para coisas mais práticas. E dia após o outro, foi-se seguindo na mesma rotina; Letícia pegava o mesmo ônibus, no mesmo ponto, com os mesmos motoristas e cobrador, com as mesmas pessoas, sentados nos mesmos lugares, conversando as mesmas coisas... Até que, em um destes dias, Letícia percebeu alguém diferente no ônibus: mesmo com lugares sobrando, ficou em pé. Tinha os cabelos assimétricos; com um lado maior que o outro, e caído em um dos olhos. Seus olhos eram inquietos; pareciam buscar algo na imensidão vazia do lado de fora. Sua cor – vermelho -, apesar de já ser única, era tão vívida quanto as cores das crianças. Ele pareceu perceber que estava sendo observado, mas sua única reação foi esboçar um sorriso. Letícia estava impressionada. Como um camaleão, ele mimetizava-se ao ambiente sem fazer parte dele. O rapaz, equilibrava-se no corredor sobre suas pernas, encostado no banco que estava atrás, seguindo o balançar do ônibus e não segurava nas barras metálicas, para deixar as mãos desocupadas e riscar algo em um bloco de papel. Ele parecia estar concentrado, até que puxou a cordinha para que o ônibus parasse no próximo ponto para que ele, aparentemente, descesse. Letícia perguntou-se por que ele não desceria no terminal da linha; todos desciam ali; mas ela não obteria esta resposta, pois ele já descia o primeiro degrau, estendendo seu braço na direção dela. Ela olhou para o papel e para ele. Ele jogou seu cabelo para trás, descobrindo seus olhos verdes, e sorriu para ela. Ela pegou o papel e o abraçou, como se fosse um rico presente. Em um piscar de olhos, ele já estava na calçada, olhando para dentro do ônibus e sorrindo. Quando, Letícia, iria lhe retribuir o sorriso, o rapaz vermelho foi tomado pelo braço por dois homens de preto. Ele olhou para os dois e se voltou para o ônibus e dar um piscadela para Letícia, enquanto era levado. Ela sentiu um desespero tomar-lhe, mas quando decidiu levantar-se, o ônibus já corria sob a pista negra, deixando-lhe apenas a imagem do rapaz sendo levado e ficando cada vez mais distante. Ela olhou em volta, mas parecia que as pessoas sequer tivessem notado o que havia acontecido; permaneciam impassíveis. Então, resignada, voltou seu olhar para o papel que jazia em seu peito e novamente surpreendeu-se. Era ela, desenhada com econômicas linhas, e pintada como se o amarelo de seu interior, estivesse vazando sua forma e iluminando ao seu redor. Ela sorriu. Gustavo pegava o mesmo ônibus, no mesmo ponto, com os mesmos motoristas e cobrador, com as mesmas pessoas, sentados nos mesmos lugares, conversando as mesmas coisas... Até que, em um destes dias, Gustavo percebeu alguém diferente no ônibus: mesmo com lugares sobrando, ficou em pé. Tinha seus longos cabelos amarelos assimétricos; com formas geométricas, e caído em um dos olhos. Seus olhos eram inquietos; pareciam buscar algo na imensidão vazia do lado de fora. Sua cor – amarelo -, apesar de já ser única, era tão vívida quanto as cores das crianças. Ela pareceu perceber que estava sendo observado, mas sua única reação foi esboçar um sorriso...
Sempre achei engraçado o fato de que sonho em primeira pessoa; vendo o sonho como se fosse visto pelos meus olhos. Mas, nestas noites, tenho tido sonhos diferentes, em que eu vejo o desenrolar do mesmo em terceira pessoa, e eu não participava diretamente dele – era mais como ler um livro. Estou relatando uma mistura dos mesmos (com devidas adaptações e licenças poéticas), para tentar compreendê-los melhor e praticar o ato de escrever (I’m back!).
Calíope e Orfeu
Fernando César Oliveira de Carvalho
Calíope e Orfeu, se conheceram ao acaso, através dos amigos dos amigos e amigos em comum, sempre riram de seus próprios nomes e como eles se relacionavam, apesar de não haver ligação entre eles. Mas, Calíope não pensava neste fato, enquanto batia nervosamente o pé na perna da cadeira que estava sentada. Preocupava-se com o que diria seus pais ao saberem que aceitara o convite de Orfeu para visitar sua casa. Moça de família, na casa de um rapaz solteiro; sozinha?
– Bem, ao menos é a casa da tia dele, e não dele... – pensava. Denunciava sua impaciência com suspiros intermitentes, enquanto ouvia o pingar do chuveiro e o cheiro de vapor e sabonete, que chegava à cozinha – limpa demais, por sinal – da casa; esperando o cumprimento da promessa de ficar com os lábios dormentes, de tantos beijos que receberia no cinema, depois da exposição que visitariam; belos programas para um domingo. Levantou-se, impelida pela curiosidade de saber como que uma cozinha de um rapaz solteiro – apesar de morar com outras pessoas – estava tão limpa. Absorta em seus pensamentos, só reparou que estava sendo observada quando uma sombra ocupou parte da mesa, em que estava apoiada. Levantou os olhos e viu Orfeu, encostado na parede do corredor, somente com uma toalha e gotas de água escorrendo pelo corpo, e aparentemente hipnotizado pelo pequeno vislumbre dos seios da mulher à sua frente; que se deixavam mostrar pelo decote da camiseta cavada de Calíope. Com uma voz doce, que escondia o fato de ser ou não uma repreensão, Calíope chamou a atenção de Orfeu: - Ô!
Parecendo ser desperto de um sonho, ele balançou a cabeça de forma quase imperceptível, e abriu um sorriso sem-graça para ela. Neste momento, ela o observou mais atentamente. Ele não era exatamente um tipo atlético, com sua barriga – pouco, mas – protuberante. Entretanto, com seu cabelo molhado e pingando, emoldurando seu rosto, seus braços cruzados de forma desafiadora e particular frente ao corpo, ela o via como Apolo; seu Apolo. Calado, ele vira-se para o corredor sem desviar seu olhar dela ou, deixando esmaecer o sorriso, entrando e deixando a porta do banheiro aberta. Calíope sentiu um frio na barriga, ao perceber as intenções do olhar desafiante de Orfeu. Mas, movida novamente pela curiosidade, deixou-se levar pelas pernas em direção ao corredor. Ao chegar frente à porta, não conseguiu conter o pequeno riso que soltou a se deparar com a figura que passava creme hidratante, desajeitadamente, em seu próprio corpo.
- Negro se não passa creme depois do banho, fica cinza – disse ele, rindo de suas próprias bobagens.
As narinas da garota, são invadidas pelo aroma familiar e adorado, do perfume que ela tanto gosta que ele use; que fora também presente dela mesma:
- Lembra o dia que você me deu esse negócio? Fez eu tomar um banho com ele, só porque você gosta... – ele diz.
– Esse negócio? Você fala com este desdém todo, mas não esquece de usá-lo todos os dias pra’quelas vagabundas do seu curso ficarem te cheirando! – ela respondeu, prontamente.
- Olhe bem, não precisamos começar outra discussão por causa desse teu ciúme bobo; você sabe que eu uso pra você, oras! Olha aqui, vou colocar a roupa e vamos sair, ta bem?
- Tudo bem! – responde ela – Mas, anda logo, que você parece uma noiva para se vestir...
Ele, irritado com o comentário, dirigiu-se para o quarto pisando forte, para deleite de Calíope, que adorava irritá-lo. Tão logo ele entrou em seu quarto, já voltou para a porta com a camiseta rosa que ela odiava, somente para provocá-la. Mas, com um ar de seriedade, ele chamou-a para o quarto, com o dedo:
- Nã, nã, nã, nã, não. Sei muito bem o que o senhor está pensando. Tá achando que eu sou o quê? Anda logo aí... – ela lhe disse.
- Ei! Só quero te mostrar uma coisa. É sério, venha ver, vai...
- Eu odeio quando você fala com esse “jeitinho”, porque sabe que eu acabo cedendo. Mas, dessa vez, você não me convence.
-Vem, anda! Você vê e a gente sai. – ele diz, com cara de quem não está brincando.
Ao entrar no quarto de Orfeu, ela logo vê o quanto está diferente das fotos – visto que era sua primeira vez ali - do site de relacionamentos; uma cama de casal, um guarda-roupas enorme, televisão, cômoda, rack, prateleiras, tudo muito bem organizado.
- Eu mudei o quarto, Calíope, para receber você sempre que vier me visitar. Quero que se sinta confortável. – diz ele, olhando para os objetos.
- Para quem vive reclamando de falta de dinheiro... – ela lhe responde, com ar de deboche. Mas, logo sente sua nuca arrepiar-se, quando ele a abraça por trás, e roça os lábios em sua nuca enquanto fala:
- Qualquer esforço é mínimo para tê-la mais tempo ao meu lado...
Ela gira sobre os calcanhares, já perdendo sua característica postura austera e imponente, exalando fragilidade, quando ele se desvia em direção à rack e liga o aparelho de som, ainda cheirando à plástico.
- Sacanagem! Você adora fazer isso comigo, seu idiota!
- Calma! – diz ele, com aquele sorriso provocativo nos lábios, enquanto aumenta a voz feminina que sai das caixas de som – Queria apenas te mostrar o Cd da Lauryn Hill que eu comprei! Sacanagem? Você ainda não viu nada...
Ele a toma em seus braços, sentindo a resistência que ela impunha, mas seus risos e avanços a fazem ceder:
- Você é um pilantra! Adora me sacanear... – diz ela, entre os dentes, com os lábios abertos e os olhos semicerrados.
- E você adora, não é? – fala ele, em murmúrios, já tocando os lábios dela com os seus.
Ela é tomada pelo entorpecer dos seus sentidos, e as mãos tentam sozinhas, repelir o impulso ao qual a mente já se entregou. Sente o toque em seu rosto, da mão de formato rústico, mas, que para sua surpresa, é quase desprovida de calosidades e tem o toque suave, quase que uma lembrança, em contrapartida do braço que a envolve com força, encostando seu corpo ao dele. Sente-se tragada pelos sentidos e pelo hálito doce e fresco, de dentes recém-escovados, em uma guerra furiosa de línguas, buscando espaço nas bocas às quais não pertencem. A leve curvatura das costas dela, sempre convidativa para um passeio realizado pelas mãos de Orfeu; e hoje, ele resolve ousar. Procura inconscientemente, brechas nos códigos dos limites impostos em silêncio. Cautelosamente, suas mãos descem pelos quadris de Calíope, não encontrando sinal de resistência. O beijo se torna mais afoito e o abraço mais apertado. Ele cessa as carícias, olhando-a com ar intrigado; o sorriso é sua resposta. Desta vez, quem toma a iniciativa do beijo, é ela, se deixando levar pelo abraço abusado de Orfeu. As mãos, já sem pudor algum, deslizam e apertam os glúteos que ele sempre olhava de sosleio, com medo de sua postura de seriedade. Ele sempre se sentiu receoso e temeroso, com as reações dela. Mas, o suspiro e a elevação de seu pescoço, denunciava aos olhos dele que ela já estava entregue. Com um não murmurado, ela tenta afastar os pensamentos libidinosos e impedi-lo de adentrar a fortaleza de sua calça, com sua mão escorregadia. Agora, em vão.
Ele sente a aspereza do bordado da lingerie, enquanto os olhos entreabertos de Calíope vê manchas que poderiam ser quadros. Ao tocar a pele macia e sentir o volume desejado, que em seus elogios dizia pertencer à uma deusa, ele arfa e sente seu coração acelerado bater na boca. Em seu desespero masculino, vê os tecidos que os separam como um empecilho a ser transposto. Se pudesse, atravessaria seu obstáculo com seu próprio corpo. Ou parte dele.
Calíope sente seu pescoço propelir para frente, ao deixar de sentir o toque úmido em seus lábios. Abre os olhos em busca de respostas, quase que soltando impropérios pela interrupção, e encontra os olhos de Orfeu mirando os seus. Com um sorriso nos lábios, sem ironia e com doçura, ele pede desculpas por estar tão afoito; quase esbaforido. Tenta traduzir em palavras seu descontentamento pela interrupção, mas acaba apenas questionando o pedido de desculpas:
- Você fala que sou encanada, mas você sempre vem pedindo desculpas...
- Eu tenho medo que acabe fazendo alguma besteira, sei lá... Algo que você não goste. – ela sorri e diz:
- Deixe de ser bobo, Orfeu!
Ela toma a mão dele, e beija seus dedos, sem desviar os olhos dos dele, e não sabe o que lhe dá mais prazer: o ato em si; ver o quanto ela o excita; ou o misto de espanto e prazer que estampa o rosto do amado. Ela aproveita a hesitação dele e passa a língua em seus dedos, fechando os olhos e deixando que as sensações e fantasias o atinjam como uma flecha de fogo; e aproveitando para mostrar seu ritmo: lento e vigoroso. E ele deixa-se levar.
Para mostrar que entendeu a mensagem, ele a puxa delicadamente, chocando o corpo dela contra o seu, virando-a de costas, sem aviso. Passa a beijar seu pescoço, fazendo-a sentir sua respiração, agora lenta e pesada, no lóbulo de sua orelha. Ele afasta, em um toque carinhoso, os cabelos lisos de sua nuca; deixando-a arrepiada com a brisa de seu suspiro. Com a língua rígida e úmida, percorre sua nuca, voltando em movimento descendente, assoprando. Com destreza e habilidade proporcionada aos amantes, ele percorre todo o corpo de Calíope sobre os tecidos, que agora, fazem parte de seu jogo.
Ela sente sensações únicas, com os dedos que a tocam e os beijos em sua nuca, fazendo-a contorcer-se e pensar de forma fulgaz, o quanto cada homem em sua vida a fez sentir-se diferente; como se cada vez, fosse uma mulher diferente também; e como cada vez era única. Mas, esta, é com certeza a melhor. E sem saber o que fazer com as mãos – pois, cada pensamento a respeito era um raio, de milésimos de segundo – ela tocava por sobre suas mãos, quase o fazendo percorrer os caminhos de seu prazer, mas, estava se divertindo com cada momento.
Com toques leves de seus joelhos, Orfeu fazia Calíope dar passos lentos em direção à sua cama. À cada passo, desvanecia em sua mente todas as fantasias que passaram em pensamento; o desejo agora o cegava e tirava-lhe qualquer noção que pudesse ter da realidade, neste momento. Seu gesto, compreendido por Calíope, de forma instintiva, virou-se novamente em sua direção para tomar-lhe os lábios. Entre beijos furiosos e lábios mordiscados, completaram seus trajeto.
Sem desviar a atenção de Orfeu, Calíope recolhe-se sobre a cama de costas, como se o desejo conferisse-lhe novos sentidos. Ele, atrapalhado, buscava apoio com suas mãos. Sem deixar-se deter e com graciosidade, ela tira-lhe a camiseta e vê, no peito desnudo de Orfeu, novos caminhos à percorrer. Ele, apenas coloca os braços ao lado do corpo, em total submissão ao querer de sua parceira. Ela desliza a ponta dos dedos por sobre os braços de Orfeu, sentindo levemente a pelagem rala e os músculos proeminentes, enquanto beija o pescoço do amado. Sua mente traça caminhos diferentes de seu corpo, imaginando o seu momento especial de entrega. Mas, o momento agora é dele. Sequer em seus sonhos ela imaginava que poderia ser desta forma. Deixa-se levar pelo desejo, e até mesmo a sensação áspera da barba grossa em seu rosto causa-lhe prazer; como se todo seu corpo estivesse anestesiado.
Orfeu contém-se, para não saltar como um predador sobre sua presa e rasgar-lhe a roupa. Todos os músculos de seu corpo estão retesados, mas sem esforço ou de qualquer forma consciente. Deixa-se apenas ser tragado pelo redemoinho de sensações de ver os cabelos de Calíope balançarem frente ao seu tórax e sentir os beijos em seu peito. Ele afasta-se calmamente, tendo o cuidado de deixar-se seguir por Calíope, que ocupada em beijar seu abdômen e cravar as unhas em suas costas, deixando-o imaginar que ele conduzia esta dança sem música. Com um sorriso e olhar malicioso, Calíope deixa-o perceber que ela sabia de suas intenções e, voltou suas atenções para o botão da calça que se abria, fazendo o zíper ceder, puxando as laterais da calça, cada qual para seu lado. Barulho de tecido pesado ao cair aos pés dele; não consegue manter-se impassível ao toque dos dedos, que desenhavam o volume sobre o tecido macio de sua cueca, fazendo-o soltar um pequeno gemido. Ao perceber o resultado de seu joguete, Calíope sorri e passa a beijar o corpo de seu amado sobre o tecido que restava. Sentia o vigor das pernas em seus lábios, assim como cada espasmo muscular ao seu toque. Ela sorria ao perceber a timidez e extremo estado de tensão de Orfeu; além de todo desespero que ele se encontrava. Ao tocar-lhe de forma mais íntima possível, ele pareceu soltar todo o ar existente em seus pulmões. Ela percorre todo o comprimento da parte desconhecida do corpo de seu amado com seus lábios, sobre o tecido, com suas mãos pousadas sobre os músculos da perna dele. Ela sentiu o toque das mãos dele em seus cabelos, juntando-os e colocando com delicadeza atrás de sua cabeça, para observá-la, já parecendo que desprovido de timidez. Os dedos delicados de Calíope, fizeram ceder calmamente o elástico de sua cueca, enquanto ela mirou os olhos dele, passando a língua entre os lábios; causando-lhe tremores no corpo. Nada passava pela cabeça dos dois, naquele momento. Ela apenas beijava-o de uma forma que jamais fizera, parecendo que teria todo o corpo dele pulsando dentro de sua boca; enquanto ele tinha sensações indescritíveis, ao toque da língua e boca úmidas de Calíope.
Breves momentos, que lhe pareceram eternos. Orfeu segura os ombros dela, erguendo-a, e deitando-a. A camiseta, puxada com um único movimento, revela a seminudez e os seios desejados de Calíope. O rompante instintivo e primitivo dele, já totalmente sem noção da realidade, faz com que tenha reações agressivas, refreadas pelo sentimento de proteção de sua parceira. Sua mão percorre a pele arrepiada, e o olfato é invadido pelo cheiro do pescoço beijado. Quando seus dedos tocam os seios e o corpo nu, deita-se sobre ela, parece a realização de um sonho. Sua visão torna-se turva e as sensações, as mais intensas possíveis. A mão desliza hábil e calmamente a calça da amante, enquanto em um beijo, as línguas se reencontram. Ele a puxa novamente, parecendo-se indeciso sobre o que fazer; a gira, abraçando-a pelas costas. Sua mão, em toque delicado, arrasta a calcinha delicada entre os dedos, para baixo; sob a supervisão dos dois pares de olhos.
Ela sente todo o calor do corpo dele, tocando o seu, e quase sendo queimada, entre as nádegas. Seu corpo treme, à cada pulsação ali, sincronizada com os beijos intermináveis; ora no pescoço, rosto, ora buscando sua boca. As mãos deslizam pelo corpo delgado de Calíope, uma sobre a outra, mas sem impor-se. Ele troca a posição de uma das mãos, fazendo-a tocar-se de modo meigo e erótico; passeando por todo seu corpo, tocando seus seios, seu abdômen, seu sexo. Ela sente o próprio corpo inundar-se, e ela sente a umidade em suas mãos.
Ele leva a mão dela em sua boca, e sorve o néctar que tanto desejava; enquanto movimenta-se sensualmente o corpo, fazendo-a senti-lo e desejá-lo. Busca fazê-la deitar-se, enquanto em pé, varre todo o corpo dela com os olhos, buscando excitação em cada centímetro do corpo da amada. Pega em seu pé, onde pousa os lábios e a beija sensualmente. Percorre o caminho em direção ao desconhecido prazer; beijando cada pedaço existente naquelas pernas. A curvatura acentuada das costas dela, o faz interpretar que está seguindo a trilha certa. Parando e olhando-a, assim que chega ao término de suas pernas, vira-a de costas, com um toque delicado. Deixa-a perceber suas intenções e mordisca a nádega direita; seguida de um beijo na esquerda. A sensação que ela tem é de que nunca pensaria ou desejaria algo assim, mas naquele momento, nada importava. A língua atrevida, percorre suas costas e nádegas, intercalando-se com beijos e suspiros. O som do quarto, já não é mais o silêncio entrecortado por suspiros. Os suspiros tornaram-se gemidos e a respiração pesada, tornou-se sussurros.
Ela vira-se, em sobressalto, agarrando-o e sussurrando em seu ouvido:
- Eu te quero, agora!
Sua resposta vem do silêncio, quando sente seu corpo sendo preenchido; devagar. Para a sua surpresa, o que se segue, mantém seu ritmo. Devagar e vigoroso; ritmado. As línguas se tocam mais uma vez, calando as vozes dos murmúrios e gemidos. Antes da morte, os olhos abrem-se e se miram. As almas se tocam.
Os corpos suados e cansados, abraçados em seu leito de amor, mantém-se em carícias, olhando-se nos olhos e em silêncio. Afastando os cabelos de Calíope, Orfeu olha em seus olhos e diz:
Por mais uma vez, o tímido rapaz suspira, enquanto comprime seu corpo contra o rígido banco da lotação. A rotina massacrante, que fulmina os pensamentos do rapaz, e drena suas energias, tira o que resta de seu ânimo. Ele observa as pessoas à sua volta com receio, parecendo um animal acuado. As parcas palavras que se permitiria proferir ao longo do dia, são engolidas ao sabor saliva, direcionando seus olhos para o vidro transparente que torna-se sua distração ao perceber o curiosos fato de que inúmeros estabelecimentos, trocam suas placas que ostentam nomes garbosos, em sincronia operática. Outro suspiro eleva seu peito, pela falta de coragem de criar novas opções em sua vida, aparentemente, sem graça; sem vida.
Lembranças de um dia de sua existência, são diluídas no gole de Coca-Cola e nas imagens oníricas das luzes artificiais da noite paulistana. Seu olhar foge para o corpo de uma jovem. Bela; exala o ar de autoconfiança, que caracteriza sua condição de independência. Ele percorre com seus olhos, varrendo a vestimenta impecável, apesar de um dia de provável trabalho exaustivo, tentando identificar o que as dobras e costuras escondem; além do local que exala o agradável cheiro de calêndulas. Ao decifrar os contornos do austero rosto, pergunta-se do quanto aquela mulher se sente sozinha ou se a mesma, contraria as expectativas. Vasculha a delicada mão com os olhos, repousada em tensão sobre a bolsa de couro preto, em busca de um sinal que contrarie suas suspeitas. Sente o incômodo característico no estômago, antes mesmo de perceber sensorialmente, os olhos que buscavam respostas daquele inquérito ótico. Com um novo suspiro, desvia o olhar para fora, comprime-se contra o banco, aperta sua mochila contra o peito e ouve o motor do coletivo.
“Se você vai fazer alguma coisa errada, aproveite.” (provérbio iídiche)
"Não há mal que sempre dure, nem bem que sempre se ature." (Provérbio, autor desconhecido) É, meus amigos. Hoje foi foda, não há outro termo. Aliás, a semana foi uma sequência de fatos desastrosos. Quem vêm lendo as bobagens que eu escrevo, aproveitem, o Blogger mantém os arquivos deletados por, no máximo, vinte e quatro horas. Sim, estou deletando tudo.
Esta tristeza que impera em minha alma, é uma consequência dos erros e incapacidades de minha vida. Vazio.
"A noite vem pejada do dia seguinte" (Provérbio oriental)
"Cada dia ensina algo ao dia seguinte." (Ditado alsaciano)
"O homem é imortal, enquanto sua missão não se realizar." (Anônimo)
Mas eu percebo, hoje, que não há meios de me expressar de forma verdadeira, sem ser mal-interpretado.
“A igual razão, igual direito.” (Ditado Romano - Do Digesto, coleção de textos do direito romano)
Estou pensando seriamente em abandonar este espaço, ou utilizá-lo de outra forma. Estou despendendo "energia", em algo sem razão de existir. Este blog, tinha por finalidade, expor minha vida pessoal para os meus amigos e para aqueles que me compreendem. Em nenhum momento tive a intenção de denegrir ou transformar este, em um espaço de crítica; seja pessoal ou profissional. Nem sequer, discutir a MINHA ÉTICA PROFISSIONAL, em um espaço de EXTRAVASAMENTO PESSOAL. Estou sendo analisado por pessoas que sequer me conhecem ou conhecem minhas palavras. Não as culpo; afinal, sou o que sou. Mas, quem me conhece, diz exatamente o contrário do que eu sempre disse que pensam sobre mim: meus amigos sempre me falam que eu me denigro; que eu me diminuo; que eu não dou valor para mim mesmo; que não percebo minhas capacidades... E assim por diante.
"Não receie crescer devagar; só tenha medo de permanecer imóvel." (Ditado chinês)
"Quem ambiciona o alheio, perde cedo o que é seu." (Fedro - Fábulas, I - 4) Não devo satisfações há ninguém, mas a quem me interessa, foi esclarecido o que sequer deveria ter sido assim.
"As adversidades trazem o engrandecimento". Provérbio árabe
"Às vezes, para ensinar algo bom, é preciso ser um pouco rude." (Ditado árabe)
"Para que nasçam virtudes é necessário semear recompensas." (Provérbio oriental)
Colocando uma pedra sobre tudo, e procurando acordar melhor amanhã (não digo que será impossível, mas minha vontade é de chorar).
" Quem poupa castigo a seu filho, odeia-o." (Provérbios, XIII, versículo 24). "Terminando o jogo, o rei e o peão voltam à mesma caixa." (Provérbio italiano) Termino por aqui, sem saber quando volto. E se volto. E o caminho no bushidô, continua (obrigado Fábio, Frank, Raquel, Carol, Cima, Vivian, Bruno... E lá vai nome... rs.).
"Quando morreres, só levarás aquilo que tiveres dado." (Provérbio árabe)
ALÉM ALMA (UMA GRAMA DEPOIS) Paulo Leminski
Meu coração lá de longe faz sinal que quer voltar. Já no peito trago em bronze: NÃO TEM VAGA NEM LUGAR. Pra que me serve um negócio que não cessa de bater? Mais parece um relógio que acaba de enlouquecer. Pra que é que eu quero quem chora, se estou tão bem assim, e o vazio que vai lá fora cai macio dentro de mim?
A sensibilidade matou o artista Fernando César
A sensibilidade matou o artista Por medo da morte A vida mata Quem me ensinou a ser louco Já morreu de overdose Pois, fácil é a descida para o inferno E as rosas agora são azuis As bitucas de cigarro Congelam no cinzeiro Da minha sala Na minha casa E o medo de ser louco Matou o poeta E a poesia já morreu Da dor mais cáustica E da doença mais podre A fome matou o vendedor de chiclete Como se mata o verme As flores circundam No velório do caixão barato Que é a única coisa que lhe deram na vida As rosas são azuis E eu sou louco, louco, louco Não sou poeta, pintor ou artista Sou alma livre E sofro da mesma dor Dos meus inimigos